2011/05/18
Os parvos estão no trono
Os loucos estão certos
Os certos estão fartos
Os fartos são modernos com os pés no chão
Os sogros estão pobres
Os pobres estão mortos
Os mortos são vivos em preservação
O bairro está cheio
As cheias estão à porta
O António das chamuças mudou de canal
Os loucos estão certos
É preciso ouvi-los
Foram avisados não nos querem mal
Os loucos estão parvos
Os parvos estão no trono
O trono que era bênção fez-se maldição
Os trilhos estão cruzados
A fome aí à espera
O tio veio ao casório para insultar o irmão
Os padres comem putos
Os putos comem ratos
Na igreja de São Torpes hoje há bacanal
Os loucos estão certos
É preciso ouvi-los
Foram avisados não nos querem mal
Ai, ai, ai
Já que a gente se habitua ao ai
Ai, ai, ai
Já que a borga continua
Já que o ritmo não recua
Seja o filho avó do pai
Os Loucos estão certos
Os certos estão fartos
Os fartos são modernos com os pés no chão
Os trilhos estão cruzados
A fome aí à espera
O tio veio ao casório para insultar o irmão
Os padres comem putos
Os putos comem ratos
Na igreja de São Torpes hoje há bacanal
Os loucos estão certos
É preciso ouvi-los
Foram avisados não nos querem mal
Ai, ai, ai
Já que a gente se habitua ao ai
Ai, ai, ai
Já que a borga continua
Já que o ritmo não recua
Seja o filho avó do pai
2011/01/28
Confiante
Confiança. Termo estranho. Assunto difícil.
Adoro confiar. Confiar nas pessoas. Confiar na vida. Confiar na boa sorte. Confiar na má sorte. Confiar em tudo e sobretudo na desconfiança. Quando desconfio dificilmente ganho confiança. Sou um gajo duro. Um gajo camaleão, estrábico… zarolho. Olho em frente mas um dos olhos insiste em olhar para o lado. Vou a direito mas sempre à espera da curva. Não sou apanhado desprevenido ou pelo menos nunca fui. Sei com o que conto, com quem contar e para onde ir. Adoro dar a confiança, desconfiada.
Um povo contente, o rei sorri, o presidente acena, todos dizem sim, eu assisto. Observo um povo que segue a manada. Observo um rei de cara congelada (só sabe rir). Vejo uma mão do presidente a acenar e outra a fazer figas. Pergunto-lhes porque dizem sim respondem-me porque sim.
Eis que chega outro Rei. Tem um sorriso mais branco. Eis que chega outro Presidente. Tem um acenar mais vigoroso. O povo vira costas, segue a manada. Todos começam a dizer não, para dizer sim aos novos rei e presidente.
Pois. A confiança não se conquista assim. A verdadeira confiança não se conquista assim. Num só gesto, num só sorriso. É um todo. Um saber estar, gerir, lidar, apoiar e confiar…
Eu gosto de ver todos estes reis, todos estes presidentes e todos os hipócritas. Eu não estou lá. Sei o que é a confiança e sei dá-la a quem a merece. Truques de quem observa, de quem lê. De quem dá espaço para que cada um deles caia. É esso o truque de saber em quem confiar. É ser idiota, parecer idiota… Ser paciente, deixar ir e correr... O tempo não mente e o mais fraco é aquele que se acha forte. Dá-lhe a força. Quando ele perceber o quão fraco é já será tarde demais para reagir.
Eu sou assim:
Sei que confio em quem me dá razão para isso.
Sei que dificilmente me conquistam a confiança.
Sei que raramente me engano na desconfiança.
Adoro a confiança que me dá o saber confiar e desconfiar.
Adoro confiar.
Adoro ter gente em quem posso confiar.
Adoro mandar à merda aqueles em quem não confio.
E, aquele em quem não confio, jamais me conseguirá agarrar.
Hoje estou:
Cansado. Agastado. Agoniado. Demasiada confiança já me deu a volta ao estômago.
Adoro confiar. Confiar nas pessoas. Confiar na vida. Confiar na boa sorte. Confiar na má sorte. Confiar em tudo e sobretudo na desconfiança. Quando desconfio dificilmente ganho confiança. Sou um gajo duro. Um gajo camaleão, estrábico… zarolho. Olho em frente mas um dos olhos insiste em olhar para o lado. Vou a direito mas sempre à espera da curva. Não sou apanhado desprevenido ou pelo menos nunca fui. Sei com o que conto, com quem contar e para onde ir. Adoro dar a confiança, desconfiada.
Um povo contente, o rei sorri, o presidente acena, todos dizem sim, eu assisto. Observo um povo que segue a manada. Observo um rei de cara congelada (só sabe rir). Vejo uma mão do presidente a acenar e outra a fazer figas. Pergunto-lhes porque dizem sim respondem-me porque sim.
Eis que chega outro Rei. Tem um sorriso mais branco. Eis que chega outro Presidente. Tem um acenar mais vigoroso. O povo vira costas, segue a manada. Todos começam a dizer não, para dizer sim aos novos rei e presidente.
Pois. A confiança não se conquista assim. A verdadeira confiança não se conquista assim. Num só gesto, num só sorriso. É um todo. Um saber estar, gerir, lidar, apoiar e confiar…
Eu gosto de ver todos estes reis, todos estes presidentes e todos os hipócritas. Eu não estou lá. Sei o que é a confiança e sei dá-la a quem a merece. Truques de quem observa, de quem lê. De quem dá espaço para que cada um deles caia. É esso o truque de saber em quem confiar. É ser idiota, parecer idiota… Ser paciente, deixar ir e correr... O tempo não mente e o mais fraco é aquele que se acha forte. Dá-lhe a força. Quando ele perceber o quão fraco é já será tarde demais para reagir.
Eu sou assim:
Sei que confio em quem me dá razão para isso.
Sei que dificilmente me conquistam a confiança.
Sei que raramente me engano na desconfiança.
Adoro a confiança que me dá o saber confiar e desconfiar.
Adoro confiar.
Adoro ter gente em quem posso confiar.
Adoro mandar à merda aqueles em quem não confio.
E, aquele em quem não confio, jamais me conseguirá agarrar.
Hoje estou:
Cansado. Agastado. Agoniado. Demasiada confiança já me deu a volta ao estômago.
2011/01/19
Tempo
Não sei do tempo, perdi-o algures no passado. Não tenho tempo para nada e, no entanto, parece que tenho todo o tempo do mundo. Tarefas que vão sendo colocadas para trás, obrigações que vão sendo cumpridas, sonhos que vão sendo alimentados. Tudo ao sabor do tempo, o tempo que perdi e vou perdendo. Não sinto a confiança abalada, muito menos a certeza de paz futura mas tenho uma falsa paciência. Sinto-a a corroer-me os sentidos e vontades. Nunca fui gajo de sobrevivência ou acomodação. Sempre sorvi vida e quero voltar a esse estado. Ter tempo e estabilidade para me entregar à vida. Por enquanto adio, espero... sobrevivo...
Pode ser que, entretanto, o tempo volte a ser tempo.
E não me estou a queixar. Até porque de nada me posso queixar...
Pode ser que, entretanto, o tempo volte a ser tempo.
E não me estou a queixar. Até porque de nada me posso queixar...
2010/12/15
Há dias assim...
Dias em que te questionas. Dias em que perguntas se o problema serás tu, desajustado no meio do aparente ajuste, a ver o que ninguém vê, sensível ao que ninguém sente...
sem ninguém que te compreenda e sem conseguires falar...
tudo uma merda... só queres que alguém te perceba... nada mais. Venha o tempo, venham resoluções, venha o novo dia, o novo ano e pouca merda para me ocupar a cabeça. Irritado, atulhado de merda.
Foi só um berro, já passou.
sem ninguém que te compreenda e sem conseguires falar...
tudo uma merda... só queres que alguém te perceba... nada mais. Venha o tempo, venham resoluções, venha o novo dia, o novo ano e pouca merda para me ocupar a cabeça. Irritado, atulhado de merda.
Foi só um berro, já passou.
2010/11/22
O menino Joãozinho...
- Joãozinho o que queres ser quando fores grande?
- Pulha!
- Pulha???
- Sim! Assim nunca desiludo ninguém pois ninguém está à espera de nada de mim. Serei sempre reconhecido e dar-me-ão sempre valor. Aos outros, só lhes dão valor quando desaparecem pois só aí se sente a falta deles...
- Pulha!
- Pulha???
- Sim! Assim nunca desiludo ninguém pois ninguém está à espera de nada de mim. Serei sempre reconhecido e dar-me-ão sempre valor. Aos outros, só lhes dão valor quando desaparecem pois só aí se sente a falta deles...
2010/09/29
Um texto de Verão
Um dia igual aos outros. Sem menos chuva, menos trovões e menos escuridão. O Inverno. Persistente. Ele já estava habituado, conformado. Olhava pela janela e pensava, deixava-se levar. O som até que era agradável, os olhos já estavam habituados, as pupilas dilatadas, o corpo já não secava e até ajudava a humedecer o coração. Chovia, ele assistia, mas o espaço fechado começava a irritá-lo. Bateu com a porta de casa! Abriu a porta da rua! A chuva escorria-lhe agora pela cara. Que se lixe ele queria andar. Já nada o incomodava.
E andou, olhava para as pessoas, umas à chuva, outras protegidas por guarda-chuvas, outras que nem se arriscavam a sair de casa. Reparou em cada um deles. Os primeiros olhavam, de tempo a tempo o céu, transmitindo um misto de esperança com tristeza… tristes porque o inverno era mais longo que o habitual, esperança quando vislumbravam um raio de sol a tentar furar a escuridão. Paravam, passavam a mão pela cara como se tentassem enxaguar o impossível, suspiravam e recomeçavam a andar. Havia que continuar, podia ser que ao virar da esquina estivesse um beiral de abrigo. Os segundos passavam, indiferentes ao resto do povo, eles estavam bem, respiravam o ar puro e a chuva não os molhava. O seu andar era relaxado, estavam protegidos. Os terceiros. Por detrás das janelas o pavor era evidente. Não tinham guarda-chuva mas também não arriscavam molhar-se. Uma indecisão. O descontentamento por estar fechado era evidente mas a chuva molha. Daí a postura nervosa e os olhos bem abertos. Era mais seguro ver o mundo passar…
Neste pensamento ele continuava caminho, ainda não sabia onde ia. Apetecia-lhe somente caminhar. De repente um carro. Uma poça. O corpo, já molhado, coberto de lama. Não teve tempo de praguejar, ou talvez nem lhe tenha apetecido. Ficou sem saber. Lembrou-se que havia um quarto grupo - os que andavam de carro… não sabiam como estava o tempo, não sentiam o frio, e muito menos a chuva. Teria ele percebido que o havia molhado? Teria sido propositado? Nunca o saberia. Desconfiava mas preferia não acreditar.
Olha que se lixe. Sacudiu as pernas libertando o máximo de lama que podia, olhou em volta, viu que não vinha mais nenhum carro e seguiu caminho. Não era este episódio que o faria desistir da sua caminhada. Avistou um jardim. Porque não? As árvores até davam algum abrigo. Viu um banco, vazio, molhado. Porque não? Até estava cansado… Sentou-se, começou a olhar à volta. Não viu ninguém. Hoje me dia as pessoas já não vão a jardins. Pensou se seria porque não tinham tempo, se porque preferiam aproveitá-lo com outras coisas ou se, simplesmente, já não os viam. Mais uma que ficava sem resposta. Suspirou e aproveitou o momento. Fechou os olhos canalizou as atenções na audição e no tacto. A chuva até que sabia bem e, o som que fazia, relaxante. De repente, algo o perturbou. Um chilrear distante. Um chilrear aflito. Abriu os olhos! Não conseguia ouvir nada. Estaria a visão a roubar-lhe espaço? Estaria a visão a abafar-lhe a audição? Decidiu fechar os olhos. Conseguia ouvir outra vez! Levantou-se e, às apalpadelas, foi caminhando no vazio em direcção ao chilrear. Estava perto, tornou a abrir os olhos. Viu uma andorinha encharcada. Tremia de frio, o peso da água e o frio era de tal ordem que a impedia de voar, de se abrigar. Tentou agarrar-lhe, ela defendeu-se, sacudiu-se e deu-lhe uma bicada na mão. Não doeu. Puxou de um lenço e tentou uma vez mais agarrá-la, sussurrou-lhe palavras, tentou acalmá-la… conquistar-lhe a confiança. Quando por fim a agarrou, reparou que trazia uma margarida presa à asa. Seria a andorinha da primavera? Colocou-a cuidadosamente no bolso, providenciando-lhe o conforto e abrigo necessários, e encaminhou-se apressadamente para casa. Abriu a porta de entrada e estranhamente o espaço não lhe pareceu tão fechado. Puxou a andorinha, limpou-a com um pano seco. Devia ter fome! Só lhe sobrava um pedaço de pão seco e bolorento. Nada mais tinha para lhe oferecer… Decidiu arriscar, desfez o pão em migalhas e estendeu timidamente a mão à andorinha. Ela olhou, mostrou algum receio e por fim deu uma bicada. Ele abriu mais a mão e a andorinha calmamente comeu cada migalha.
Incrível como o tempo havia passado rápido. Tinha que ir dormir. Preparou um abrigo para a andorinha e foi-se deitar. Acordou de manhã com um chilrear alegre, abriu os olhos calmamente e viu a andorinha a voar pelo quarto, vislumbrou um raio de sol a atravessar-lhe a persiana. Levantou-se num ápice, abriu a persiana… o sol brilhava! Queimava-lhe ligeiramente a cara. Rasgou-lhe a face e fez aparecer um sorriso. Abriu a janela! Era tão bom o calor… a andorinha voou… partiu… e voltou!
E andou, olhava para as pessoas, umas à chuva, outras protegidas por guarda-chuvas, outras que nem se arriscavam a sair de casa. Reparou em cada um deles. Os primeiros olhavam, de tempo a tempo o céu, transmitindo um misto de esperança com tristeza… tristes porque o inverno era mais longo que o habitual, esperança quando vislumbravam um raio de sol a tentar furar a escuridão. Paravam, passavam a mão pela cara como se tentassem enxaguar o impossível, suspiravam e recomeçavam a andar. Havia que continuar, podia ser que ao virar da esquina estivesse um beiral de abrigo. Os segundos passavam, indiferentes ao resto do povo, eles estavam bem, respiravam o ar puro e a chuva não os molhava. O seu andar era relaxado, estavam protegidos. Os terceiros. Por detrás das janelas o pavor era evidente. Não tinham guarda-chuva mas também não arriscavam molhar-se. Uma indecisão. O descontentamento por estar fechado era evidente mas a chuva molha. Daí a postura nervosa e os olhos bem abertos. Era mais seguro ver o mundo passar…
Neste pensamento ele continuava caminho, ainda não sabia onde ia. Apetecia-lhe somente caminhar. De repente um carro. Uma poça. O corpo, já molhado, coberto de lama. Não teve tempo de praguejar, ou talvez nem lhe tenha apetecido. Ficou sem saber. Lembrou-se que havia um quarto grupo - os que andavam de carro… não sabiam como estava o tempo, não sentiam o frio, e muito menos a chuva. Teria ele percebido que o havia molhado? Teria sido propositado? Nunca o saberia. Desconfiava mas preferia não acreditar.
Olha que se lixe. Sacudiu as pernas libertando o máximo de lama que podia, olhou em volta, viu que não vinha mais nenhum carro e seguiu caminho. Não era este episódio que o faria desistir da sua caminhada. Avistou um jardim. Porque não? As árvores até davam algum abrigo. Viu um banco, vazio, molhado. Porque não? Até estava cansado… Sentou-se, começou a olhar à volta. Não viu ninguém. Hoje me dia as pessoas já não vão a jardins. Pensou se seria porque não tinham tempo, se porque preferiam aproveitá-lo com outras coisas ou se, simplesmente, já não os viam. Mais uma que ficava sem resposta. Suspirou e aproveitou o momento. Fechou os olhos canalizou as atenções na audição e no tacto. A chuva até que sabia bem e, o som que fazia, relaxante. De repente, algo o perturbou. Um chilrear distante. Um chilrear aflito. Abriu os olhos! Não conseguia ouvir nada. Estaria a visão a roubar-lhe espaço? Estaria a visão a abafar-lhe a audição? Decidiu fechar os olhos. Conseguia ouvir outra vez! Levantou-se e, às apalpadelas, foi caminhando no vazio em direcção ao chilrear. Estava perto, tornou a abrir os olhos. Viu uma andorinha encharcada. Tremia de frio, o peso da água e o frio era de tal ordem que a impedia de voar, de se abrigar. Tentou agarrar-lhe, ela defendeu-se, sacudiu-se e deu-lhe uma bicada na mão. Não doeu. Puxou de um lenço e tentou uma vez mais agarrá-la, sussurrou-lhe palavras, tentou acalmá-la… conquistar-lhe a confiança. Quando por fim a agarrou, reparou que trazia uma margarida presa à asa. Seria a andorinha da primavera? Colocou-a cuidadosamente no bolso, providenciando-lhe o conforto e abrigo necessários, e encaminhou-se apressadamente para casa. Abriu a porta de entrada e estranhamente o espaço não lhe pareceu tão fechado. Puxou a andorinha, limpou-a com um pano seco. Devia ter fome! Só lhe sobrava um pedaço de pão seco e bolorento. Nada mais tinha para lhe oferecer… Decidiu arriscar, desfez o pão em migalhas e estendeu timidamente a mão à andorinha. Ela olhou, mostrou algum receio e por fim deu uma bicada. Ele abriu mais a mão e a andorinha calmamente comeu cada migalha.
Incrível como o tempo havia passado rápido. Tinha que ir dormir. Preparou um abrigo para a andorinha e foi-se deitar. Acordou de manhã com um chilrear alegre, abriu os olhos calmamente e viu a andorinha a voar pelo quarto, vislumbrou um raio de sol a atravessar-lhe a persiana. Levantou-se num ápice, abriu a persiana… o sol brilhava! Queimava-lhe ligeiramente a cara. Rasgou-lhe a face e fez aparecer um sorriso. Abriu a janela! Era tão bom o calor… a andorinha voou… partiu… e voltou!
2010/09/21
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